"É de se esperar do umbigo que negue o seu buraco e critique o espelho, ao invés de olhar para o espelho e criticar a origem do reflexo. Diz-se que um bom espelho reduz às cinzas o mais extravagante dos umbigos, fato que o obriga a desviar o olhar do que está sendo refletido e a decidir por um espelho que reflita o que ele gostaria de ser (ou acha que é)."
(anônimo, séc. XIX)




Apresentação

Esse é um relato sobre um povo exótico, os Otahrios, povo selvagem, originário das savanas africanas e da Europa Ocidental, atualmente espalhado pelo planeta, cuja maior colônia encontra-se na América do Sul.

Os Otahrios são a jabuticaba do planeta Terra.

Em sua maior colônia, na América do Sul, onde os Otahrios têm total liberdade para controlar o rumo de suas vidas e sociedade, chama a atenção o modo exótico como os Otahrios lidam com o seu destino.


Produtos e Serviços

Apesar de todo o know-how disponibilizado pelas civilizações mais avançadas do século XXI, a maior parte dos serviços que os Otahrios prestam (para eles mesmos) e dos produtos que os Otahrios produzem (para si mesmos) possui qualidade muito abaixo dos equivalentes em civilizações desenvolvidas. A cultura dos Otahrios propicia essa especial predileção pelo que é inferior. E o mais incrível é que os Otahrios pagam muito caro por esses produtos e serviços (de péssima qualidade). Muito mais caro do que no mundo civilizado onde os mesmos produtos e serviços possuem qualidade significativamente melhor do que na republiqueta dos Otahrios.

Avessos à Ciência, os Otahrios têm capacidade baixíssima para desenvolver tecnologias próprias e por isso importam tecnologia de civilizações que têm capacidade de desenvolvimento e evolução (e que investem significativamente em pesquisas). Ainda que a tecnologia custe pouquíssimo no país de origem, os Otahrios preferem que sua colônia pague desproporcionalmente caro pelas compras que faz no mundo civilizado, mesmo quando não há a menor perspectiva de produção com tecnologia própria.

Os Otahrios também gostam de terceirizar para as civilizações avançadas serviços relevantes para o desenvolvimento e soberania de sua colônia. Essas civilizações adoram os Otahrios pois os Otahrios as deixam faturar alto com os seus produtos e serviços: na terra dos Otahrios elas conseguem lucrar tudo o que não podem em terras civilizadas. O dinheiro que arrancam dos Otahrios muitas vezes é usado para socorrer suas matrizes em tempos de crise. Elas sabem que os Otahrios pagam o que elas pedirem (e um pouquinho mais) e maximizam seu lucro pois não precisam oferecer serviços e produtos com a qualidade que o fazem em seus países de origem, uma vez que os Otahrios têm predileção por serviços e produtos de baixa qualidade.

Os Otahrios consideram que lhes confere status social pagar caro por um produto ou serviço que no mundo civilizado custa pouco. Um Otahrio típico costuma se achar em igualdade de desenvolvimento econômico, social e cultural com habitantes de sociedades cuja civilização e civilidade estão anos luz à frente do Otahrio mediano.

A principal colônia dos Otahrios é uma das terras mais ricas do planeta em recursos naturais. Ainda assim os Otahrios são um povo que vive em situação precária. Tal situação é explicada pela falta de capacidade e incompetência generalizada que os Otahrios têm para transformar essa riqueza natural em recursos que propicie para eles mesmos melhor qualidade de vida. A maior parte da riqueza dos Otahrios é vendida a preço de bananas para o mundo civilizado.


Sociedade

As melhores cabeças entre os Otahrios acabam por deixar a principal colônia rumo ao mundo civilizado, onde têm acesso a Cultura e Educação de qualidade, compatível com os padrões mínimos necessários ao desenvolvimento pleno das capacidades humanas. Os poucos Otahrios que têm o potencial para desenvolver suas qualidades ao máximo e que insistem em ficar na colônia, acabam por ser anulados pela massa de Otahrios que desprezam suas ideias por falta de entendimento (ou por sentimentos menos nobres).

(Os Otahrios são um povo selvagem, com acesso restrito à educação e incapacidade generalizada para desenvolverem-se a patamares atingidos há muito por outros povos e civilizações - quando muito eles conseguem imitar o que vêem em outros lugares, ainda assim sem a menor noção dos fundamentos).

Os Otahrios adoram levar vantagem sobre eles mesmos. Na sociedade dos Otahrios é um sacaneando o outro: do mecânico que presta um serviço no carro do Otahrio à montadora que vende para o Otahrio um veículo de quinta a preço de ouro. Do comércio que vende para o Otahrio tudo pela metade do dobro do preço às empresas que enganam os Otahrios com promoções que não passam de armadilhas. Do Otahrio que estaciona seu carro exclusivo em fila dupla ao Otahrio que fura o lugar na fila de outro Otahrio.

Os Otahrios são um povinho escroto, que não perde a oportunidade de tentar passar os outros pra trás. Na republiqueta dos Otahrios você tem que ficar atento aos detalhes.

E não pense criticar um Otahrio: os Otahrios são extremamente sensíveis a qualquer crítica e por mais que estejam errados em alguma atitude, como por exemplo ultrapassar um carro pela direita e pelo acostamento, um simples comentário desse fato pode gerar uma discussão interminável e em alguns casos com final trágico para o observante. Um Otahrio sempre acha que está certo em qualquer coisa que faça e considera a crítica um ataque pessoal injustificado. Se você quiser colocar alguém contra você, critique um Otahrio.


Governo

Os Otahrios gastam fortunas para sustentar um governo inchado e ineficiente, cuja única característica positiva é prestar serviços ao gosto dos Otahrios: péssimo e de baixa qualidade. No mundo civilizado os serviços públicos são prestados com mais qualidade e eficiência do que na republiqueta dos Otahrios e, não raro, arrecadando apenas uma fração do que os Otahrios gastam com impostos.

Os Otahrios têm especial apreço pelos piores bandidos de sua espécie.

Tal apreço pela bandidagem faz com que os Otahrios elejam como governantes membros de quadrilhas especializadas nos mais diversos crimes, tais como formação de quadrilha, corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, enriquecimento ilícito, gestão fraudulenta de instituições públicas, golpes, peculato, estelionato e em infindáveis outros atentados contra o patrimônio público que no mundo civilizado são tratados como crimes graves. Os Otahrios não têm capacidade para perceber que aos poucos (no caso, aos muitos) os bandidos que eles colocam no poder enfraquecem sua colônia ao enviar para a Suíça, em meias e cuecas, os recursos que se aplicados onde deveriam, proporcionariam aos Otahrios uma vida melhor e com qualidade; fariam de sua colônia um país de verdade, diferente da republiqueta em que transformaram sua sociedade e da qual não conseguem evoluir.

Na colônia dos Otahrios, bandidos têm foros e privilégios que um Otahrio comum não possui, graças a um sistema de profunda desigualdade jurídica, em que a lei a rigor só é aplicável ao Otahrio comum e seus semelhantes, porém extremamente flexível para os Otahrios eleitos e seus comparsas.

Esse apreço pela bandidagem reflete-se também na organização social: qualquer biboquinha onde tenha um Otahrio em situação de poder é alvo de denúncias e de desvio de conduta. Por exemplo, associações de bairro, de lojistas, condomínios, sindicatos, ONGs e até em um automóvel, onde o Otahrio no comando não percebe que a sociedade não se resume ao quintal de sua casa e nem ao perímetro de seu umbigo.